:: verba volant, scripta manent ::

Um blog com conteúdos úteis [ou não] de um gajo que aprendeu a ler na semana passada

sexta-feira, março 31, 2006

Sic transit gloria mundi #15

Num mundo em que temos 50 canais de televisão que nos entram pela casa adentro com imagens de tudo e mais alguma coisa, qual Big Brother tornado realidade, em que tudo parece já ter sido descoberto, apenas se pode sonhar e imaginar a magnífica epopeia que foram os Descobrimentos Portugueses, com a emoção de se ser, de facto, dos primeiros a ver novas terras, novos continente, novos povos, novas culturas... fundamentalmente, descobrir o outro.

«No dia seguinte de manhã aparecem aves a que chamam fura-buxos; finalmente, à tarde, avistam terra, e com ela o que se ia sucessivamente vislumbrando: primeiro um grande monte, muito alto e redondo, que, a pouco e pouco, se converte em terra chã junto da costa. O capitão deu-lhes nome: Monte Pascoal e Terra de Vera Cruz.
Com prudência, mediando a profundidade da baía, os navios foram avançando, os mais pequenos e os de menor calado à frente. No dia 23, pelas dez horas da manhã, todos ancoraram na embocadura de um rio, com uma profundidade de nove braças, a meia légua de terra.
Foi nesse dia e nessa praia que os marinheiros dos navios mais pequenos, os primeiros a chegar, viram sete ou oito homens que andavam na praia. Tendo o capitão-mor chamado os outros capitães a conselho na nau-capitânia, Pedro Álvares Cabral decidiu mandar a terra Nicolau Coelho. À medida que se aproximava da praia, iam chegando mais homens em grupos de dois ou de três, até que se juntaram ali cerca de vinte.»

In “A Carta de Pedro Vaz de Caminha”, de Manuela Mendonça e Margarida Garcez Ventura

quarta-feira, março 29, 2006

Sic transit gloria mundi #14

Nunca me foi fácil tomar uma posição ou perceber de que lado poderá estar a razão na questão que opõe Israel à Palestina (ou vice-versa). Parece-me uma questão intrincada, com contornos históricos e sociais que se enraízam profundamente na vida de ambos os povos, de difícil resolução. Dúvidas acerca do comportamento israelita para com os palestinianos... deixei de as ter assim que tentei perceber melhor e me informei mais acerca da questão. Para tal muito contribuiu o Festróia 2004, festival para o qual trabalhei, que nesse ano possuía um ciclo temático acerca deste conflito. Pude então visionar (mais) alguns documentários (independentes), que muito me elucidaram.
Ontem tive oportunidade de ver mais um, na 2:, que se intitulava "Checkpoint". Versava sobre os Postos de Controlo que os israelitas mantém na Faixa de Gaza, que controlam a entrada e saída de palestinianos de e para os territórios ocupados. Vi, uma vez mais, a arbitrariedade, o desprezo, a prepotência, a desumanidade, o egoísmo, a superioridade elitista e bacoca com que os palestinianos são tratados. Vi coisas das que mais abomino, vi cenas que me chocam, e que são nota de exércitos e povos embrutecidos pelos (longos) anos de guerras e conflitos, insensíveis, cegos, surdos e mudos. Não pude deixar de pensar que, tanto no comportamento dos soldados, como no tratamento dispensado aos que nos postos precisam de passar para fazer a sua vida, existia algo de nacional-socialista (ou nazi, se quisermos). Mas apenas uma frase me ficou a ecoar no pensamento. Foi dita por um senhor, pequenino, já idoso, que tentava por todos os meios (especialmente pela simpatia e expressando o seu apoio aos soldados, dizendo que outrora também o foi, veja-se!) conseguir que o deixassem passar num desses Postos/Pontos de controlo, pois queria ir passar o Natal com a família.
Disse ele: "Sou escravo na minha própria terra". Há algo mais triste do que sermos odiados, termos a nossa liberdade, nacionalidade, cidadania, até a nossa dignidade, roubadas e subvertidas por quem nos ocupa?

terça-feira, março 28, 2006

Sic transit gloria mundi #13

Com as crescentes desigualdades entre habitantes do mesmo planeta, em que cada vez mais as pessoas são tratadas como números e a economia substitui o racionalismo como ciência para as relações humanas, apetece-me citar Malcom X:
"Não lutamos por integração ou por separação. Lutamos para sermos reconhecidos como seres humanos. Lutamos por direitos humanos."

segunda-feira, março 27, 2006

Oculos habent et non videbunt #9


Caravaggio
David vencendo Golias

sexta-feira, março 24, 2006

Sic transit gloria mundi #12

Se os Governantes de hoje em dia tivessem tal noção de justiça...
Como elRei mandou degollar dous seus criados, porque roubarom huum judeu e o matarom
«Este Rei Dom Pedro em quanto viveo, husou muito de justiça sem afeiçom, teendo tal igualdade em fazer direito, que a nenhuum perdoava os erros que fazia, por criaçom nem bem querença que com el ouvesse; e se dizem que aquel he bem aventurado Rei, que per si escodrinha os malles e forças que fazem os pobres, e bem he este do conto de taaes, ca el era ledo de os ouvir, e folgava em lhes fazer direito, de guisa que todos viviam em paz, e era ainda tam zeloso de fazer justiça, espeçiallmente dos que travessos eram, que perante si os mandava meter a tormento, e se confessar nom queriam, el se desvestia de seus reaaes panos, e per sua maão açoutava os malfeitores, e pero que dello muito prasmavom seus conselheiros e outros alguuns, anojavasse de os ouvir, e nom o podiam quitar dello per nenhuuma guisa. Nenhuum feito crime mandava que se desembargasse salvo perantelle, e se ouvia novas dalguum ladrom ou malfeitor, alongado muito donde el fosse, fallava com alguum seu de que se fiava, prometendolhe merçees por lho hir buscar, e mandavalhe que nom vehesse ante elle, ataa que todaria lho trouvesse aa maão; e assi lhos tragiam presos do cabo do reino, e lhos apresentavom hu quer que estava; e da mesa se levantava, se chegavom a tempo que el comesse, por os fazer logo meter a tormento; e el meesmo poinha em elles maão quando viia que confessar nom queriam firindoos cruellmente ataa que confessavam. A todo o logar honde elRei hia, sempre achariees prestes com huum açoute, o que de tal offiçio tiinha encarrego, em guisa que como a elRei tragiam alguum malfeitor, e el dizia chamemme foaão que traga o açoute, logo elle era prestes sem outra tardança. E pois que escrepvemos que foi justiçoso, por fazer dereito em reger seu poboo, bem he que ouçaaes duas ou tres cousas: por veerdes o geito que em esto tiinha. Assi aveo que pousando el nos paaços de Bellas que el fezera, dous seus escudeiros que gram tempo avia que com el viviam, seendo ambos parceiros ouverom comselho que fossem roubar huum Judeu que pelos montes andava vendendo speçearia, e outras cousas, e foi assi de feito, que forom buscar aquella çuja prea e roubaromno de todo, e o peor desto, foi morto per elles; sua ventura que lhe foi contraira, aazou de tal guisa que forom logo presos e tragidos a elRei ali hu pausava. ElRei como os vio tomou gram prazer por seerem filhados, e começouhos de preguntar como fora aquello, elles pensando que longa criaçom e serviço que lhe feito aviam, o demovesse a ter alguum geito com elles, nom tal como tiinha com outras pessoas, começarom de negar, dizendo que de tal cousa nom sabiam parte. El que sabia ja de que guisa fora, disse que nom aviam por que mais negar, que ou confessassem como ho matarom, se nom que a poder de cruees açoutes lhe faria dizer a verdade: elles em negando, virom que elRei queria poer em obra o que lhe per pallavra dizia, comfessarom todo assi como fora; e elRei sorrindosse disse que fezerom bem, que tomar queriam mester de ladroões e matar homeens pelos caminhos, de se ensinarem primeiro dos Judeus, e depois viinriam aos Christãos; e em dizendo estas e outras palavras passeava perantelles dhuma parte aa outra, e parece que nenbrando-lhe a criaçom que em elles fezera e como os queria mandar matar, viinham-lhe as lagrimas aos olhos per vezes; depois tornava asperamente contra elles reprendendoos muito do que feito aviam, e assi andou per huum grande espaço. Os que hi estavam que aquesto viam, sospeitando mal de suas razoões, aficavamse muito a pedir merçee por elles, dizendo que por huum Judeu astroso nom era bem morrerem taaes homeens, e que bem era de os castigar per degredo, ou outra alguuma pena, mas nom mostrar contra aquelles que criara pello primeiro erro tam grande crueza. ElRei ouvindo todos respondia sempre que dos Judeos viinriam depois aos Christaãos, en fim destas e outras razoões, mandou que os degollassem, e foi assi feito.»
in "Crónica de D. Pedro I", de Fernão Lopes

quinta-feira, março 23, 2006

Sic transit gloria mundi #11

E porque há que dar valor aos portugueses que o têm (e porque sou um entusiasta da obra de Fernão Lopes e de História, especialmente a de Portugal) aqui fica:
«Lopes has been called the Portuguese Froissart, and that rare gift, the power of making their subjects live, is common to the two writers; indeed, had the former written in a better-known language, there can be little doubt that the general opinion of critics would have confirmed that of Robert Southey, who called Lopes beyond all comparison the best chronicler of any age or nation.»

Oculos habent et non videbunt #8


Giovanni Antonio Canal (também conhecido por Canaletto)
Riva degli Schiavoni verso est [1730]

terça-feira, março 21, 2006

Oculos habent et non videbunt #7


Antonio Lopez

La Granvía [1981]

Sic transit gloria mundi #10

Subscrevo inteiramente

segunda-feira, março 20, 2006

Sic transit gloria mundi #9

Fundamentalismo

s.m., Relig.,
aceitação e defesa de um conjunto de princípios de natureza religiosa tradicionais e ortodoxos tidos por verdades fundamentais e indispensáveis a uma consciência religiosa (individual ou colectiva).

Fanatismo

s. m.,
excessivo zelo religioso;
facciosismo partidário;
adesão cega a alguém, a um sistema ou doutrina;
dedicação excessiva;
cegueira;
obstinação.

Parece-me claro que se anda a falar e a discutir há muito tempo, na comunicação social, nos círculos políticos e mesmo entre amigos, conceitos errados acerca do suposto Fundamentalismo Islâmico. Parece-me claro que, face a estas definições, dever-se-ia passar a utilizar a designação de Fanatismo Islâmico para designar as atitudes e actividades radicais de pessoas ou movimentos islâmicos.
Fundamentalismo religioso pode existir entre pessoas de qualquer confissão, desde que cumpram todos os preceitos religiosos recomendados aos seus seguidores. No caso do catolicismo encontraremos o baptismo, a crisma, as comunhões, entre outras. No caso muçulmano, encontramos os chamados cinco pilares do Islão (Chaada, Salat, Zakat etc).
Quando os fundamentos de uma religião são subvertidos, radicalizados e transformados de acordo com interesses de pessoas e/ou grupos que pretendem atingir fins através de meios (religião) comuns a vários milhões de pessoas, o Fundamentalismo é substituído pelo Fanatismo, do qual existem representantes de todas as confissões religiosas. Adopte-se pois uma nova linguagem, em benefício de uma maior compreensão dos fenómenos globais.

sexta-feira, março 17, 2006

Sic transit gloria mundi #8

Até quando continuaremos a fechar os olhos a um povo e uma terra que nos ama e jamais nos esqueceu?
«Eles têm uma grande vontade de terem os portugueses junto deles. A par das imagens religiosas, a bandeira portuguesa para eles é uma coisa sagrada. Nem a sombra da bandeira portuguesa eles pisam.»
[Para ler o artigo clicar aqui]

quinta-feira, março 16, 2006

Sic transit gloria mundi #7

Durante quase um século houve um equilibrio nos pratos de uma balança constítuida por ideologias denominadas por Esquerda e Direita, entre o Comunismo/Socialismo e o Capitalismo. Durante muito tempo, e como quase em todas as lutas políticas ou sociais, assistimos a uma luta de ideologias, transformada numa luta entre o bem e o mal, encarnando os blocos Norte-Americano e Soviético esses valores, velhos como o homem, que terão tido a sua génese, quem sabe, na história de Abel e Caim.
Houve um tempo em que uma união vermelha travou a expansão capitalista, agindo como factor de bloqueio a fenómenos hoje em dia corriqueiros, mas nem por isso menos abomináveis, garantindo assim que uma parte do planeta não fosse afectada por essa doença infecciosa a que se convencionou chamar consumismo. Agora, engolidos por bens materiais adquiridos com dinheiro de plástico, perdendo a identidade de europeus que nos caracteriza e adoptando cada vez mais os valores veículados pela super-potência vencedora da denominada Guerra Fria, deixámos de perceber com clareza quem nos quer mal. Esquecemo-nos que, não existindo uma (ideologicamente) verdadeira Esquerda, a Direita também deixa de existir (como ideologia), já que ambas estão intimamente ligadas. Antagonizam-se, contrapõem-se, mas confrontam-se, auto-desafiam-se na busca por um percurso. São, como Rómulo e Remo, indissociáveis.
Assistimos então à destruição diária do nosso modo de vida e da nossa cultura por valores, posturas, pensamentos que não são os nossos, que adoptámos dum modelo que procurou apenas veicular virtudes, sem que nunca nos apercebessemos que talvez houvesse algo mais. E eis que agora, desaparecido o factor equilibrador (o Pacto de Varsóvia), assistimos impávidos, talvez estupefactos, às invasões do Afeganistão e do Iraque, à reutilização de napalm (encapotado sobre outro nome, mas comprovadamente utilizado no Iraque ) sobre civis, aos atropelos e violações aos Direitos Humanos (perpetrados em Guantanamo, e sabe Deus em que sítios mais), pelo antigo melhor amigo e protector da Europa e do Mundo, antiga potência-polícia do Mundo, hoje exército ditador do mundo.
Afirmo desde já, que como Europeu, filho dum ponto do globo que viu nascer máximas como Igualdade, Liberdade, Fraternidade, não aceito submeter-me aos caprichos e às decisões do governo dos Estados Unidos da América. Exijo uma nova perestroika para a Europa. Uma política humana, racional, de cultura e educação, que forme cidadãos inteligentes, opinionados, informados, crentes na condição humana. Recuso, qual Espártaco dos tempos modernos, ser escravo dum povo e duma mentalidade não conforme, histórica e humanamente, com a minha. Reclamo emancipação e direito a viver numa Europa social, que acarinhe tanto os ricos e poderosos, como os pobres e doentes. Rejeito entrar numa nova Idade Média, regida pela guerra e carnificina, com vista ao controlo de novas terras e mercadorias (vide as ocupações do Afeganistão e Iraque e a exploração e expropriação de petróleo do último). Procurarei sempre afirmar-me Humanista, como um dia Erasmo de Roterdão. E utópico, como Rafael Hitlodeu. Procurarei acordar todos os dias com vontade de mudar o Mundo, estando consciente de que se calhar não conseguirei. Mas render-me... nunca.

terça-feira, março 14, 2006

Sic transit gloria mundi #6

«Repetindo Claude-Lévi Strauss, podemos dizer que a noção de civilização mundial é paupérrima, esquemática, com um conteúdo intelectual e afectivo de escassa densidade. Aliás, até talvez não possa haver civilização mundial, uma vez que civilização implica a coexistência de culturas oferecendo cada uma delas o máximo de diversidade, e consiste nessa mesma coexistência. A civilização mundial não pode ser outra coisa do que a coligação, à escala mundial, de culturas, preservando cada uma delas a sua originalidade, impondo-se preservar a diversidade das culturas, num mundo ameaçado pela monotonia e pela uniformidade.»
in "Fundamentalismo Islâmico - A Ideologia e o Estado", de Eugénio Costa Almeida

segunda-feira, março 13, 2006

Oculos habent et non videbunt #6



Keith Haring

Knokke (1987)

sexta-feira, março 10, 2006

Sic transit gloria mundi #5

«Parece que toda a gente está de acordo que o mundo inteiro está em crise. Como isto me parece demasiado vasto para eu poder ser útil, decidi que sou eu quem está em crise e que talvez consiga sair dela com três princípios. O de me ver livre do supérfluo, o de não confundir o verbo amar com o verbo ter, o de prestar voto de obediência ao que for servir, não mandar.»
in "As folhinhas do Professor", de Agostinho da Silva

quinta-feira, março 09, 2006

Oculos habent et non videbunt #5


Edward Hopper
Rooms by the Sea (1951)

quarta-feira, março 08, 2006

Trovadores da nação #2

Recomenda-se hoje o albúm "Ederlezi", de Goran Bregovic. Grande senhor da música balcânica, numa linha folk / world music, é responsável por belas bandas sonoras, colaborando notávelmente com Emir Kusturica em filmes como "Underground" ou "Arizona Dream". Este dico compila exactamente alguns dos melhores temas utilizados em bandas sonoras de filmes como os atrás referidos. Vale a pena ouvir, nem que seja só pela lufada de ar fresco que as músicas [exóticas e diferentes] trazem a um dia-a-dia musical dominado pelo comercialismo das rádios e tvs.

▪ 1. La nuit
▪ 2. Ederlezi (Scena Durdevana na rijeci)
▪ 3. Mesecina / Moonlight
▪ 4. TV Screen (feat. Iggy Pop)
▪ 5. 7/8 & 11/8
▪ 6. Ausencia (feat. Cesaria Evora)
▪ 7. Cajesukarija – Cocek
▪ 8. Kalashnikov
▪ 9. Elo Hi [canto nero] (feat. Ofra Haza)
▪ 10. Death
▪ 11. Dreams
▪ 12. American Dreamers (feat. Johnny Depp)
▪ 13.Talijanska (traditional Italian music)
▪ 14. Man from Reno (feat. Scott Walkers)
▪ 15. Lullabye
▪ 16. Underground tango
▪ 17. Ederlezi

terça-feira, março 07, 2006

Oculos habent et non videbunt #4


Roy Lichtenstein
Blam (1962)

Sic transit gloria mundi #4

"We have evolved with a tendency to link causality to things we can touch or feel, not to some distant or difficult phenomenon. We believe especially in near-term causes: a snake bites your friend, he screams with pain, and he dies. The snakebite, you conclude, must have killed him. Most of the time, such a reckoning is correct. But when it comes to cause and effect, there is often a trap in such open-and-shut thinking. We smirk now when we think of ancient cultures that embraced faulty causes-the warriors who believed, for instance, that it was their raping of a virgin that brought them victory on the battlefield. But we too embrace faulty causes, usually at the urging of an expert proclaiming a truth in which he has a vested interest."
in "Freakonomics - A rogue economist explores the hidden side of everything", de Steven D. Levitt e Stephen J. Dubner

domingo, março 05, 2006

Oculos habent et non videbunt #3

Jacek Yerka
Nauka Chodzenia

quinta-feira, março 02, 2006

Amor caecus #2

Se a tua boca as diz
se no teu rosto as vejo
as palavras são coisas
quando as fere o desejo

e quando dizes mar
e quando dizes norte
não sei se não me acerco
de um bocado de morte

e quando dizes barco
ou quando dizes esfera
há águas que transbordam
e inundam a terra

as palavras são coisas
as palavras são um perigo
se acaso as pronuncias
quando não estás comigo

e quando tu adormeces
muda num sonho fundo
tudo se desvanece
e deixa de haver mundo.


"As palavras são coisas #2", de Bernardo Pinto de Almeida

[ Sugestão: Sam The Kid & Kalaf - As Palavras São Coisas #2 ]

Amor caecus #1

«A rapariga loura reparou naturalmente em Macário, mas naturalmente desceu a vidraça correndo por trás uma cortina de cassa bordada. Estas pequenas cortinas datam de Goethe e elas têm na vida amorosa um interessante destino: revelam. Levantar-lhe uma ponta e espreitar, franzi-la suavemente, revela um fim; corrê-la, pregar nela uma flor, agitá-la fazendo sentir que por trás um rosto atento se move e espera – são velhas maneiras com que na realidade e na arte começa o romance.»

in "Singularidades de uma rapariga loura", de Eça de Queirós

quarta-feira, março 01, 2006

Oculos habent et non videbunt #2


António Ramalho
Margens do Sena, Paris - 1882